A relação entre arte e verdade nos pensamentos de Nietzsche e Heidegger
Resumo: Este projeto propõe estudar a relação entre arte e verdade nos pensamentos de Nietzsche e Heidegger. Com este propósito, queremos interpretar a transformação da noção de verdade que se operou a partir da crítica nietzschiana à sua concepção tradicional a concepção metafísica da verdade como determinação conceitual da essência do real. Para Nietzsche, contrária a essa noção de verdade, que desvia o homem de sua potência atrofiando a sua vontade, a arte restitui ao homem a sua vontade de potência: Temos a arte para não sucumbirmos da verdade. O propósito deste projeto de pesquisa é pensar como, a partir da crítica que Nietzsche faz à discrepante relação entre arte e verdade, Heidegger vai colocar em questão a noção tradicional e metafísica de verdade, a fim de mostrar a sua própria origem, oculta e esquecida, na compreensão grega antiga de verdade como alétheia. Pensando esse termo grego etimologicamente na palavra alemã Unverborgenheit (descobrimento), Heidegger quer mostrar como que, antes de ser uma determinação conceitual da essência do real, a verdade consiste no acontecimento de descoberta de sentido que, revelando o que é, mostra o real como verdadeiro. Como descobrimento original de sentido, a verdade antes de ser contrapostas à arte como duas dimensões distintas da experiência, do pensamento e ações humanas, para Heidegger elas se conjugam no acontecimento da criação: A arte é o pôr-se em obra da verdade.
Desde o princípio, considero muito grave a relação entre a arte e a verdade: e ainda hoje experimento um horror sagrado diante deste desacordo. Meu primeiro livro lhe é consagrado: O nascimento da tragédia professa a fé na arte desde uma outra crença: a saber, que não é possível viver com a verdade; que a vontade de verdade já é um sintoma de degenerescência... (F. Nietzsche, XIV, 368. in: Heidegger. A vontade de potência como arte. Nietzsche I. P. 74)
Nietzsche contrapõe arte e verdade como dois modos distintos de ser, o da vontade de criar e o da vontade de verdade: Vontade de verdade: esta é a impotência da vontade de criar. (F. Nietzsche. A vontade de potência, 582) Para ele o homem busca a verdade por não suportar o porvir de sua realidade, a angústia de ter que, a cada momento, vir a ser o que ele é. Para negar esta condição, a fim de obter o domínio da realização do real, o homem busca se certificar do que é verdadeiro com a segurança de um entendimento lógico, conceitual que, ao apreender a essência, prende o porvir da realidade: O homem busca a verdade, um mundo que não se contradiga, que não engane, e que não mude, um mundo-verdade um mundo onde não se sofra contradição, ilusão, mudança causas do sofrimento. (Idem) Para Nietzsche, a verdade concebida em seu sentido tradicional, como determinação conceitual do que uma coisa é, uma definição de sua essência universal, nega as condições efetivas da existência, o seu aparecer, que passa a ser concebido como o erro da aparência.
Por não suportar a contradição e o engano, a ilusão e a mudança, o homem pretende, com a certeza do conhecimento, obter um entendimento da essência do que as coisa são, para além das incertezas de como elas aparecem, que o permita a dominação incondicional de toda realidade. Por temer a imponderabilidade de seu acontecimento, o homem busca paralisar o mundo nos conceitos do entendimento, como se neles estivesse o fundamento de sua realidade. A verdade é uma espécie de erro sem a qual uma espécie de ser vivo não poderia. (Idem, § 488)
De acordo com Nietzsche, a vontade de verdade surge no homem debilitado que, por ser impotente de criar o que ele é na conjuntura de seu acontecimento, quer uma determinação certa e segura do real; a certeza da verdade confere a segurança que permite ao homem debilitado uma vida tranqüila. Como certeza de uma determinação conceitual, a verdade cristaliza o real em uma única possibilidade de sua aparição, que passa a ser tomada como a verdadeira. Ao trancafiar deste modo o horizonte das possibilidades do real se realizar, transformando a possibilidade original e contingente de sua realização em uma necessidade lógica do entendimento, a vida passa a ser mais tranqüila àqueles que não suportam a angústia da criação: É mais cômodo obedecer do que examinar; é mais agradável pensar eu possuo a verdade que ver a obscuridade em torno de si...; diante de tudo, este pensamento tranqüiliza, dá confiança, leveza à vida, melhora o caráter, à medida que decresce a desconfiança. A paz da alma, o repouso da consciência: todas estas invenções só são possíveis com a condição de que a verdade exista. (Idem, § 451)
Nietzsche indica que temos a arte para não perecermos da verdade (Idem, § 821); para ele, a arte é o contra-movimento à verdade, na medida em que, diante da apatia instaurada pela verdade, ela restitui ao homem a sua vontade de criar. Ao contrário da negação das condições finitas da existência, com a busca de uma verdade geral e imutável, a arte consiste na realização humana que assume o aberto do porvir como sua condição fundamental. Através dessa assunção, a arte promove no homem a superação da vontade de verdade, recompondo a sua vontade de potência por meio da experiência da criação: O efeito das obras de arte é o de provocar o estado de ânimo que cria a obra de arte: isto é, a embriaguez. O que é essencial na arte é seu aperfeiçoamento da existência, o seu provocar a perfeição e plenitude; a arte é essencialmente a afirmação, a bendição, a divinização da existência... (Idem, § 820)
O sentimento de embriaguez (das Rauschgefühl) corresponde para Nietzsche a um aumento de força, do ânimo de vida, que permite ao homem se aperfeiçoar no que ele faz, se interessar em ser plenamente o que ele é a embriaguez da vontade de potência faz com que o homem, tal como uma criança jogando, crie o que ele faz com entrega, inocência e esquecimento. Ao contrário da ciência que debilita, a arte restitui a vontade de potência ao homem, restabelecendo a sua vitalidade; desde a perspectiva da vida, a arte é o seu grande estimulante.
Nietzsche compreende a estrutura da vida como vontade de potência, e esta como a dinâmica de auto-superação do eterno-retorno. Tudo que é vivo quer se tornar mais forte, crescer e se vitalizar. A este movimento de crescimento e vitalização, Nietzsche chama de auto-superação. Todavia a auto-superação, para não perder a sua força motriz, necessita sempre outra vez recuperar a sua origem inicial: a auto-superação consiste na assunção do eterno-retorno. Somente retornando à sua fonte original, pode a vida auto-superar-se em sua vontade de potência. A esta dinâmica de retorno e superação da vontade de potência, Nietzsche chama de criação, ela corresponde ao estado de embriaguez que cria a obra de arte.
Neste sentido, de acordo com o pensamento de Nietzsche, há uma contraposição fundamental, vital, entre verdade e arte, à medida que, enquanto a verdade possui um efeito debilitante da vontade, o querer a segurança e tranqüilidade do que é certo, a arte promove no homem a embriaguez da criação, o querer a superação do feito que restitui o eterno-retorno de sua criação. Para o pensamento de Nietzsche, a arte tem mais valor que a verdade,
Após esta crítica à nossa noção de verdade, Heidegger, como herdeiro histórico do pensamento de Nietzsche, vai colocar a verdade em questão perguntando, pela primeira vez na história da filosofia, por sua essência:
Diversos pensadores se esforçaram em elucidar o conceito de verdade; que Descarte interpreta a verdade como certeza; que Kant distingue uma verdade empírica e uma verdade transcendental; que Hegel determina novamente a importante diferença entre a verdade abstrata e a verdade concreta, quer dizer, entre a verdade científica e a especulativa; que Nietzsche diz que a verdade é um erro: eis diversas colocações essenciais da interrogação pensante. E não obstante, nenhuma delas aborda a essência da verdade.
Desde Ser e tempo, passando por seu texto Sobre a essência da verdade, escrito e reescrito durante mais de doze anos, Heidegger busca insistentemente fazer uma crítica à noção tradicional da verdade como adequação, a fim de indicar o seu modo de ser mais fundamental na noção grega antiga, caracterizada com a palavra alétheia traduzida por Heidegger pelo termo alemão Unverborgenheit, que podemos traduzir para a expressão portuguesa descobrimento. Com esta indicação, Heidegger quer mostrar que, antes de ser uma adequação correta do juízo à coisa, a verdade consiste num acontecimento originário que descobre um sentido oculto que mostra o real na perfeição de seu aparecimento. Antes de uma ausência de defeito ou erro, a verdade compreendida como descobrimento ocorre no perfazer do que é feito todo, naquilo que consuma o que vem a ser, mostrando o que aparece na plenitude de seu ser. A partir desta nova (antiga) compreensão do que é verdade, ao contrário da contraposição nietzschiana entre arte e verdade, para Heidegger a arte é o pôr-se em obra da verdade. Esta pesquisa se propõe a compreender, através do estudo da relação entre arte e verdade em Nietzsche e Heidegger, o que com este diálogo de pensadores se transformou a verdade para que ela agora seja posta em obra na arte; o motivo deste propósito é pensar quais são as conseqüências históricas desta transformação.
Data de início: 01/08/2010
Prazo (meses): 12
